A febre, definida como um aumento da temperatura do corpo acima de 37,2°C (medida na axila), é um evento que acompanha boa parte das doenças inflamatórias, especialmente as infecções e, de modo mais freqüente, na infância.

A febre na criança costuma trazer angústia aos pais, que sentem uma necessidade grande de baixá-la imediatamente, temendo possíveis conseqüências maléficas aos seus filhos. Isso está muito mais baseado em desinformação do que conhecimento científico. A febre sempre existiu, acompanhando diversas doenças, como mecanismo de defesa do organismo. Com o aumento da temperatura corpórea, nosso sistema imunológico tem a possibilidade de agir mais rápida e eficazmente.

A produção e a ativação de diversas substâncias e células de defesa aumentam na febre, o que facilita a resolução da inflamação. Sabe-se, de longa data, que durante a febre o organismo humano consegue produzir mais anticorpos contra vírus e bactérias. O aumento de apenas 1º C na temperatura corpórea consegue diminuir duas vezes a multiplicação viral. No caso do resfriado, por exemplo, o vírus se reproduz muito bem a 35º C, já a 38º se reproduz pouco e aos 40º não se reproduz. Portanto, o melhor remédio para o resfriado é a febre! E o pior remédio é o resfriamento – que pode acontecer após o uso de diversos antitérmicos.

Durante nosso desenvolvimento, passamos por crises que precedem períodos de mudanças. Na infância, dos 0 aos 7 anos de idade, essas mudanças ocorrem com as doenças febris. O calor traz a possibilidade daquilo que nos é mais individual, chamado na Medicina Antroposófica de organização do Eu, de intervir na constituição orgânica. Isso se acentua na febre. O Eu precisa se expressar através do corpo físico, e a febre o ajuda a tornar esse corpo herdado dos pais mais adequado a suas próprias características individuais.

(Robertice: Entendi agora porque a minha filha, quando se recuperava de um problema de febre – que eu consegui controlar sempre apenas usando a Cura Prânica – ficava um pouco diferente de como era antes e parecia até mais inteligente. É que ela estava se livrando da herança orgânica que eu e sua mãe tínhamos lhe passado e criando seu próprio Eu Físico.)

Observamos, na pessoa febril, um rebaixamento de seu nível de consciência. Pensar e atuar fica mais difícil durante a febre (o corpo e a mente pedem repouso). É como se a consciência (a individualidade ou o eu) “descesse” da cabeça até os órgãos internos e membros, para tomar posse daquilo que foi herdado dos pais. Isso só se consegue através do calor corporal. Por isso, se no início da febre as extremidades estiverem frias (principalmente os pés) pode se fazer compressas mornas nas panturrilhas e pés (ou escalda-pés mornos também), ajudando o calor a chegar até lá. E depois da compressa, deve se colocar meias bem quentinhas e repousar. Porque a febre começa na cabeça e peito e vai descendo para os pés. E aí torna a subir para a cabeça e desaparece.

Assim responder com febre durante uma doença é sinal de boa vitalidade, de capacidade de reagir frente às ameaças externas. Após cada episódio de febre o sistema imunológico, expressão de nossa individualidade, se torna mais preparado para enfrentar as agressões externas, e a criança, como um ser único, ganha uma batalha e conquista seu novo espaço.Trata-se de um amadurecimento orgânico, vital para o amadurecimento anímico que se segue.

(Robertice II: Tomara que as mães comecem a seguir essas orientações para seus filhos, ao invés de dar-lhes dipirona que, segundo o Dr. Nilo Gardin, faz a temperatura baixar rapidamente para 35,5º C, o que é bastante prejudicial às crianças. “Porque um probleminha que se resolveria em dois ou três dias acaba, muitas vezes, se transformando em uma alergia, que pode durar anos e até a vida inteira.”)

Quando e como intervir

O bom senso sempre deve nos guiar. Em algumas situações é adequado baixar a temperatura com antitérmicos. Mas são situações de exceção, como quando a febre ultrapassa os 41º C; durante a gravidez (a febre poderia trazer problemas de formação ao feto); em pessoas com doenças cardíacas (ao aumentar a freqüência cardíaca, a febre pode sobrecarregar o coração de quem já teve um infarto ou tem angina); em doenças crônicas muito debilitantes(tuberculose, hipertireoidismo etc); em doenças psiquiátricas (onde a febre pode desencadear determinados surtos); e em pessoas com epilepsia – quando a febre pode facilitar a ocorrência de novas crises.

Existem recursos naturais e medicamentos antroposóficos e homeopáticos que ajudam o doente febril a modular a temperatura, ou seja, evitam que ela exceda determinados limites, ao mesmo tempo em que trazem bem-estar e auxiliam a fase de recuperação. Antitérmicos sintéticos e antibióticos precisam ser usados com muito critério e, os últimos, somente sob prescrição médica.

- Crianças têm febre mais alta e de instalação mais rápida do que os adultos.

- Durante a febre convém respeitar a falta de apetite da criança, não a forçando a comer. Se houver perda de peso, ela recuperará rapidamente após a doença. Porém é muito importante que ela beba líquidos (água, chá e sucos), para repor as perdas ocasionadas pela transpiração que acompanha a febre.

- Não dê banho frio na criança com febre, tampouco use compressas com álcool. Isso causa perda muito rápida de temperatura. O banho deve ser na temperatura do corpo (em torno de 37º C).

- Brinquedos e atividades que estimulam demasiadamente o pensamento, como vídeo game, computador, lição de matemática etc., devem ser evitados durante a febre. Há necessidade de repouso físico e mental.

- Consulte o médico para saber a verdadeira causa da febre. Se o tratamento é feito com um médico antroposófico ou homeopata, ele necessitará de informações que individualizem o caso, como por exemplo, se o aumento da temperatura foi súbito ou lento, se houve presença e características de sede, suor, sintomas mentais (estado de ânimo, ansiedade, desejo de companhia etc), entre outros.

- Após os episódios de febre o calor tem que ser mantido, especialmente nas extremidades (pés), agasalhando bem a criança e evitando perdas excessivas de calor.

Seguindo esse caminho, o organismo da criança terá aprendido algo durante a doença febril, por esforço próprio. Note a expressão na face de seu filho ou de sua filha após recuperar-se de uma doença febril, onde a febre não foi suprimida, mas sim auxiliada de modo consciente e natural. A criança está sutilmente diferente: um pouco menos parecida com os pais, um pouco mais parecida com ela mesma. Você deu liberdade para ela amadurecer.

O mito da convulsão

Ao contrário do que se teme, convulsões são episódios muito raros (3% das crianças), não deixam seqüelas e dificilmente se repetem. As convulsões febris só ocorrem na faixa etária entre 3 meses e 6 anos de idade. Por ser um fenômeno isolado, uma convulsão não pode ser definida como epilepsia.

Ela não depende do grau de febre, isto é, não é mais comum de ocorrer aos 40º do que aos 38º C. Além de raramente acontecer, a convulsão febril cessa espontaneamente e geralmente não causa nenhum dano à criança. A grande maioria das crianças com história de convulsão febril nunca mais irá apresentar novo episódio durante todo o resto de sua vida. Na próxima infecção, seu organismo terá “aprendido” a superar até uma febre mais alta sem convulsões.

É importante saber que a febre não é uma doença em si, mas uma maneira de se defender, e que o grau de febre não está relacionado à gravidade da doença. O estado geral da pessoa é mais importante.
(Publicado no Periodicum Weleda nº 34 – Inverno de 2005)

Serviço: Dr. Nilo Gardin, CRM 78.538, é Especialista em Clínica Médica pela Sociedade Brasileira de Clínica Médica. Especialista em Hematologia pela Sociedade Brasileira de Hematologia e Hemoterapia. E Terapêutica orientada pela medicina antroposófica e homeopatia. Para saber mais sobre seu trabalho, envie e-mail para nilogardin@superig.com.br


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